As discussões sobre esquema tático continuam sendo um tema delicado quando envolvem Ruben Amorim. O técnico do Manchester United nunca escondeu sua resistência em abandonar o sistema com três zagueiros, postura que sempre causou estranhamento no futebol inglês e que ele próprio já ironizou ao afirmar que nem o Papa conseguiria convencê-lo a mudar.
Uma publicação do jornalista Nathan Salt no Daily Mail aponta que, dentro da academia do clube, a noção de que as categorias de base devem espelhar o time principal para benefício futuro não é tratada como prioridade. Os jovens seguem atuando majoritariamente no 4-3-3. Ainda assim, quando surgiram informações sobre uma possível mudança de formação antes da partida contra o Bournemouth, o clube iniciou uma investigação interna para descobrir a origem do vazamento, com forte insatisfação do CEO Omar Berrada.
Amorim não é o único treinador a ter sua filosofia constantemente questionada. Na Escócia, Wilfried Nancy enfrenta pressão no Celtic por insistir no 3-4-3, enquanto Eddie Howe também passou a ser alvo de críticas após ser superado taticamente pelo United quando Amorim optou por uma linha defensiva com quatro jogadores. Howe chegou a afirmar que a existência de muitos planos alternativos indica problemas no plano principal.
No Manchester United, o incômodo interno com o funcionamento da equipe vem crescendo gradualmente. Um episódio até então não divulgado envolve Christopher Vivell, chefe de recrutamento do clube. Após o empate em 1 a 1 com o Fulham, em agosto, partida em que o United voltou a desperdiçar uma vantagem no placar, Vivell teria se mostrado incomodado com a facilidade com que o adversário explicou publicamente como explorou o sistema da equipe.
Marco Silva detalhou de forma clara como o Fulham conseguiu gerar superioridade numérica no meio-campo, enquanto Alex Iwobi confirmou que o plano era atacar os espaços deixados pelos dois meio-campistas do United e forçar os zagueiros a sair da linha. Surpreso com a franqueza das declarações, Vivell teria compartilhado os comentários em um grupo interno da alta cúpula, defendendo a necessidade de evolução para um modelo menos previsível.
Declarações recentes de técnicos rivais, como Rob Edwards, do Wolves, reforçaram essa percepção externa de rigidez tática, algo que também causou desconforto nos bastidores de Old Trafford.
Apesar das críticas, Amorim recebeu respaldo interno por não abrir mão de suas convicções, ao contrário de antecessores que acabaram demitidos após recuar de suas ideias. A diretoria e a torcida aceitaram o discurso de reconstrução e paciência, mesmo com dificuldades evidentes.
Houve alívio quando Amorim indicou publicamente a intenção de variar o estilo e o sistema antes do empate por 4 a 4 contra o Bournemouth. A vitória seguinte sobre o Newcastle, com uma formação mais convencional, alimentou o otimismo. No entanto, a decisão de retornar a um esquema mais defensivo contra o Wolves gerou frustração, sobretudo pela falta de ambição ofensiva.
O empate em casa escancarou um time confuso, com Amorim demonstrando irritação constante à beira do campo e criticando decisões de jogadores experientes. Mesmo apoiadores do treinador passaram a demonstrar desgaste diante da sequência de resultados fracos em Old Trafford.
Com vários desfalques por lesão e pela Copa Africana de Nações, o time atual se assemelha ao grupo desorganizado que empatou com o Ipswich no início da passagem de Amorim. O próprio treinador já havia apontado que seus jogadores pensavam demais em campo e demonstravam insegurança, sensação que voltou a aparecer contra o Wolves.
Sem Bruno Fernandes atuando como liderança técnica dentro de campo, jogadores passaram a demonstrar dúvidas em relação às orientações do treinador. Embora o valor do elenco seja muito superior ao do Wolves, crescem as críticas a um sistema que não potencializa as características individuais.
Jogadores jovens da base têm sido utilizados fora de suas posições habituais, aumentando a sensação de improviso. Ao mesmo tempo, o diálogo entre Amorim e o diretor de futebol Jason Wilcox segue constante, mas tornou-se visivelmente mais tenso nas últimas semanas, percepção reforçada pelas declarações públicas do treinador e pela falta de expectativa por reforços na janela de janeiro.
Apesar de defender que o desenvolvimento individual deve estar acima da formação utilizada nas categorias de base, o clube reconhece os desafios de adaptação ao time principal. Mudanças recentes no elenco levaram Amorim a adotar um jogo mais direto em alguns momentos e, sem a bola, uma estrutura próxima do 4-4-2.
Na Premier League, onde tudo é amplamente analisado, o fator surpresa é raro. Amorim admite a necessidade de aumentar a variabilidade do jogo para extrair o máximo do elenco. Quando funciona, a imprevisibilidade se transforma em vantagem competitiva.
Com o confronto diante do Leeds se aproximando e incerteza sobre a formação inicial, cresce a expectativa por uma versão mais clara, flexível e eficiente do trabalho de Amorim. O treinador tem a oportunidade de transformar convicção em resultados concretos.


